
Roberto Shinyashiki é um apaixonado pelo ser humano. Para entender melhor a alma das pessoas, formou-se em Psiquiatria, estudou Psicoterapia, tornou-se especialista em Análise Transacional e terapias corporais. Para compreender as pessoas em seu ambiente de trabalho e nas organizações, fez doutorado em Administração de Empresas, pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP). Para conhecer a fundo a dimensão espiritual da vida, participou de retiros espirituais com sacerdotes católicos, mestres na Índia e monges Zen-budistas, no Japão.
Sua experiência como terapeuta de governadores, ministros, empresários, atletas e artistas, integrada à sua vivência como líder de seminários organizacionais, completa as bases de conteúdo de um método inédito, que ele chamou de "Programa de Ativação do Poder Interior". O método visa ajudar as pessoas a se autoanalisarem e a agir de modo a obter o máximo de poder interior e satisfação com a vida.
Ambiente Urbano: O medo é um dos sentimentos mais presentes entre as pessoas que vivem nos grandes centros urbanos. Há o medo de doenças, da violência, de ficar desempregado, como lidar com tantas pressões?
Roberto Shinyashiki: No meu novo livro, A Coragem de Confiar, alerto que o medo não pode ser nosso companheiro de viagem. No máximo, ele pode ser uma placa na beira da estrada, assinalando uma curva perigosa à frente no caminho. Apenas um sinal de alerta, mas nunca um impedimento. A saída para deixar esse círculo vicioso é ir além do medo e estabelecer uma confiança que o mova para frente - é acreditar sempre em você mesmo, no outro e em Deus. Esse é o segredo para superar suas dúvidas e receios e dar a volta por cima. É preciso ter a coragem de confiar, pois a confiança é a melhor vacina contra a insegurança e as preocupações.
AU: É notado que até mesmo a arquitetura das cidades está se modificando em função do medo. Casas e prédios se protegem com muros altos e fios eletrificados. Esta tendência pode ajudar a disseminar a cultura do medo?
Shinyashiki: A arquitetura fechada das cidades reflete hoje o medo das pessoas. Mas não tem necessariamente que promover o medo. Concordo que ver as casas cheias de grades, os condomínios investindo cada vez mais em equipamentos e pessoal de segurança, e coisas desse tipo, fazem com que as pessoas se sintam acuadas e sem esperança. Mas essa mesma paisagem pode servir também de alerta para que se perceba a necessidade de fazer algo diferente. E esse algo tem de começar dentro de cada um de nós, e se chama "confiança". Precisamos voltar a aprender a confiar, para não nos tornarmos reféns de nossos medos.
Tudo bem que temos de levar em conta o perigo real que está nas ruas das cidades de hoje e nos prepararmos para ele. Mas não devemos nos deixar impressionar por essa situação a ponto de ficar paralisados e deixar de viver os nossos sonhos.
AU: Por que as pessoas sentem tanto medo de ficar sozinhas?
Shinyashiki: O ser humano não nasceu para ficar sozinho. Nossa felicidade depende em grande parte de termos alguém para amar - de preferência, que também nos ame. Mas as pessoas estão evitando se entregar a uma relação porque já não confiam mais umas nas outras.
Confiar nas pessoas é fundamental para podermos manter relacionamentos saudáveis. Quando podemos entregar nosso coração para um amigo ou compartilhar uma dificuldade com alguém em quem confiamos e receber sua orientação, temos certeza de que os problemas são apenas oportunidades para aprofundar nossas amizades. É lógico que devemos buscar confiar apenas nas pessoas que merecem e escolher com critério. Mas é preciso ter em quem confiar. Afinal, confiança é algo muito especial na nossa vida. Infelizmente, muitas pessoas não confiam nem na própria sombra e acabam ficando muito solitárias. Confiar é algo que faz bem a nós mesmos. Viver sempre desconfiando é algo muito cruel para conosco. Pior do que se arriscar a confiar em quem não merece é nunca confiar em ninguém.
AU: As pessoas sentem medo da felicidade?
Shinyashiki: Eu não diria que as pessoas sentem medo da felicidade, mas sim que sentem medo de não conseguir ser feliz. Para muitos a felicidade parece ser algo inatingível e isso assusta bastante. Quando a felicidade lhe parece impossível, pode ter certeza: isso está acontecendo porque você não confia principalmente em si mesmo. E talvez não confie também nos outros e nem mesmo em Deus. Viver dessa maneira afasta a felicidade e dá forças para os seus medos.
AU: O medo pode gerar doenças físicas? Como identificar quando isso acontece?
Shinyashiki: Todo desvio psíquico, quando muito intenso, pode gerar efeitos somáticos, isto é, reflexos no corpo físico. São diversos os sintomas que aparecem quando estados emocionais intensos, inadequados e frequentes fazem parte da sua vida: dores de estômago, insônia, tremores, mau humor, ansiedade, gula, pressão alta e, muitas vezes, estresse tão elevado que pode causar problemas cardíacos.
O medo exagerado, descontrolado e frequente pode causar todos esses sintomas físicos e mentais e pode ir muito além disso: pode arruinar todos os seus planos e inviabilizar seus sonhos. Seja por gerar insuficiência física ou debilidade mental ou falta de ânimo para seguir em frente.
AU: Quando o medo se torna patológico, qual a melhor providencia a se tomar?
Shinyashiki: Em qualquer situação que saia de nosso controle, é importante procurar ajuda. Da mesma forma, quando o medo foge do razoável, a ponto de comprometer nossa saúde física e mental, convém procurar a ajuda de profissionais de saúde para reverter essa situação. Mas é claro que quando o medo é tão intenso que se torna patológico - assim como nas chamadas Síndromes de Pânico - fica muito difícil confiar no que ou em quem quer que seja.
AU: Em algum momento o medo pode ser positivo?
Shinyashiki: O medo é positivo quando funciona como um mecanismo protetor da nossa integridade. Aliás, esse é o papel verdadeiro do medo. Os medos imaginários, que se tornam excessivos, é que são o problema.
O medo positivo e saudável é aquele baseado na realidade e que nos leva a ser cautelosos e proteger a nós mesmos contra riscos verdadeiros. O medo negativo é aquele irracional e infundado, que muitas vezes fica tão grande que nos paralisa.
Como nosso inconsciente não diferencia fantasia de realidade, frequentemente nossos medos imaginários nos pregam peças e acabam nos paralisando. Mas quando a confiança está em nossa alma, o medo desaparece, porque a luz não conhece a escuridão.
AU: A coragem significa a ausência do medo?
Shinyashiki: A coragem é apenas a disposição de enfrentar seus medos. É aquela atitude de seguir em frente, apesar do medo.
O medo é uma das nossas emoções verdadeiras. Lidar com ele faz parte da nossa experiência de estar vivo.
AU: Muita gente passa a vida em uma "zona de conforto" por medo de investir em novas possibilidades. Qual a sua dica para que as pessoas tenham coragem de executar as mudanças na vida?
Shinyashiki: Muita gente se imagina segura com uma manifestação de poder exterior, como dinheiro, status e aplausos. E muitas vezes procura manter-se nessa chamada zona de conforto indefinidamente, até mesmo por medo de se arriscar em algo diferente. Mas é importante perceber que tudo que está fora de você pode ser tirado. Você pode perder os seus bens materiais, deixar de ser diretor de uma multinacional, perder o programa que faz na televisão, ou mesmo o seu cargo político. Então, é preciso ir além do medo do que vem pela frente e lançar-se aos novos desafios. A maneira mais segura de ter paz de espírito e realizar a sua missão de vida é através do seu poder interior. É através desse poder que você realiza verdadeiramente a sua vocação e também pode ajudar ao próximo.
A nossa força interior nasce do equilíbrio destas três forças: a fé, a confiança no outro e a autoconfiança. E é para buscar esse equilíbrio que criei o "Programa de Ativação do Poder Interior" (PAPI), que está no livro A Coragem de Confiar.
Esse programa vai ajudar você a conseguir a sua capacidade máxima de ação e manter os níveis dos três tipos de confiança sempre ativados. Você vai poder identificar como eles estão a cada momento de sua vida e corrigir aqueles que eventualmente estiverem baixos ou distorcidos.
AU: Qual é o caminho para se atingir uma vida feliz?
Shinyashiki: Para se ter uma vida feliz, é preciso, antes de tudo, ter a tranquilidade de viver cada dia em sua totalidade. E para viver dessa forma, é preciso não se deixar paralisar pelo medo.
Então, a melhor maneira que vejo de alguém se candidatar a ser feliz é desenvolver a confiança. Por isso, o meu segredo pessoal de superação está resumido na frase: "Confio em três forças nesta vida: primeiro, confio em Deus; segundo, acredito e confio nas pessoas; terceiro, confio em mim mesmo."
Compreenda que essa ordem que citei não é necessariamente de acordo com a importância dessas três confianças na nossa vida. Na verdade, o essencial é que busquemos sempre o equilíbrio entre a confiança em Deus, em nós mesmos e nos outros. Para mim, esse é o caminho da felicidade. (Revista Ambiente Urbano)