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Entrevista
Mauricio Waldman

Não se faz políticas de águas fechando a torneira

Muito tem se falado sobre a crise da água. Alguns até mesmo afirmam que o recurso deve se esgotar em poucos anos. Nesta entrevista, o professor doutor Mauricio Waldman, autor de diversos livros e também de uma tese de doutorado que faz uma relação entre a água e as grandes metrópoles, tranquiliza-nos com a informação de que a água do planeta não vai acabar. Porém, adverte que estamos na iminência de um problema muito mais grave se os atuais padrões da sociedade permanecerem como estão. Ou seja: se a água continuar recebendo uma carga de poluentes maior do que a sua capacidade de purificação, será muito difícil encontrá-la com qualidade para o consumo. Segundo Waldman, o caminho para não chegarmos a esse ponto é a criação de políticas públicas, não só para a água, mas também para o lixo e para a energia elétrica, afinal, é a partir de um bom gerenciamento desses elementos que se evitará um colapso.

Ambiente Urbano: Quais as condições dos recursos hídricos das cidades?

Waldman: A coisa está muito complicada e tem ainda um agravante: a Cidade de São Paulo, em termos de formação histórica e de assentamento geográfico, está em uma situação desfavorável por ocupar uma região de cabeceira. Grande parte das cidades do mundo está localizada no centro ou na foz das bacias hidrográficas. Por exemplo, Londres está no meio da bacia do Tâmisa, Varsóvia está no centro da bacia do Vístula e Moscou está no meio da bacia do rio Volga... Algumas cidades encontram-se na foz das bacias, tal como Xangai, Roma também, enfim, a maior parte das cidades do mundo localiza-se no meio ou no final de uma bacia. São Paulo é a única metrópole do mundo que está em uma região de cabeceira e uma região como esta não disponibiliza toda a água que uma bacia pode fornecer. É uma condição muito desfavorável do ponto de vista geográfico.

AU: E como resolver isso?

Waldman: Se pensarmos na questão dos recursos hídricos da Grande São Paulo, por exemplo, existe uma questão, que eu diria, até mesmo surreal, relacionada com a perda de água. Um levantamento feito pelo geólogo Ricardo Hirata, do Instituto de Geociências (IGc) da USP, diz que 60% da água retirada dos aquíferos, existentes na região metropolitana, procedem de vazamentos de adutoras e de perdas de águas por vazamentos, provocados por rompimentos de tubulações da rede de distribuição da Sabesp e de outras concessionárias que operam na região. Ou seja, não fossem os vazamentos, os aquíferos da Bacia do Alto Tietê estariam em uma situação crítica.

AU: E se não houvesse os vazamentos?

Waldman: Muitos já não estariam funcionando. Com isso dá para se ter uma ideia do descalabro com relação à gestão de água na metrópole.

AU: Isso significa que não há uma preocupação maior com as águas como deveria?

Waldman: Com certeza não. Existe um histórico de destruição dos recursos hídricos na metrópole que vem de muito longe, a começar pela empresa Light, que teve uma política de destruição dos recursos hídricos para favorecer a produção de energia.

AU: A Billings é um desses casos, ou seja, formada só para a geração de energia?

Waldman: Para falar da Billings, é preciso lembrar o Decreto-Lei do então presidente Arthur Bernardes [nº 16.844] de 1925. A autorização governamental para a construção da represa Billings estipula de forma muito clara que a companhia que tivesse a prerrogativa de gerar energia deveria também cuidar da água como um elemento de abastecimento público de água potável. Ou seja, autorizava a produção de energia, desde que a água fosse preservada para fins de abastecimento público. Mas o que veio depois é outra história.

AU: Muitas campanhas são promovidas recomendando que a população use a água sem desperdício. Isso seria o suficiente?

Waldman: Na realidade, se pensarmos em questão de abastecimento, isso é um pouco complicado. Não adianta só pensar em políticas de água fechando a torneira. Se pensarmos que para se produzir um quilo de carne bovina são utilizados 100 mil litros de água, este mesmo volume é suficiente para uma pessoa tomar banho de ducha por seis anos e oito meses, tomando por base um banho de cinco minutos. Esse exemplo mostra que só o fato de recomendar a fechar a torneira não resolve, pois deve-se pensar em solução para todas as formas que geram impacto no uso da água.

AU: Sim, apesar de esse desperdício ocorrer no campo, a maior parte do consumo é feito nas grandes cidades...

Waldman: A cidade são 2% da superfície do mundo, mas consome 75% dos recursos do planeta. Existe uma conta d'água que eu costumo fazer, que está relacionada ao padrão de uso dos recursos hídricos. Então, por exemplo, para se produzir um quilo de papel são necessários 250 litros de água, para um quilo de arroz são necessários 1910 litos. Enfim, toda atividade humana tem um impacto hídrico muito forte, porque não é possível fazer nada sem água.

AU: Já ouvi em vários lugares que a água é a mesma no planeta desde sempre. Isso é verdade?

Waldman: Depende. Na realidade, a água não é a mesma. Se pensarmos em termos de ser um contingente macro, ela até é a mesma, mas não bem assim. Vou explicar: por exemplo, nós estamos aqui conversando agora e está entrando na atmosfera uma série de meteoritos, que não se sabe de onde vêm e, cada vez que um deles entra na atmosfera, ele se desintegra e libera água. Ninguém sabe de onde veio esta água.

AU: Quer dizer que tem água extraterrestre no planeta?

Waldman: Tem, e muito! Se considerar que existe água extraterrestre entrando no planeta há décadas, séculos e milênios, chegamos à conclusão que há muita água que vem de fora. Isso quem fala, inclusive, é o Aldo Rebouças, que é um hidrólogo cearense. Ele diz que há duas formas de a água entrar no planeta: uma vem da cosmosfera, através de meteoritos; a outra forma de entrada de água no sistema hidrológico planetário é do centro do planeta, através das chamadas águas juvenis. Isso ocorre com o resfriamento do magma que libera água. Então, existe água que vem tanto de fora como do centro da Terra. Podemos afirmar que a quantidade de água que está na superfície não é a mesma. Existe uma diferença de afirmar isso: podemos dizer que historicamente a água é a mesma, mas geologicamente ela não é.

AU: Então, isso significa que a água não corre o risco de acabar?

Waldman: Não existe isso de a água acabar. Por exemplo, você toma um copo de água, mas de onde vem essa água? O mamute bebeu, piterodáctilo bebeu, depois eliminaram e essa água evaporou; enfim, existe um ciclo da água e, tecnicamente falando, ela não acaba. O problema é que a escala da poluição dos recursos hídricos está muito maior do que os meios naturais têm à disposição para purificar. 

AU: O problema é o impacto do homem sobre os recursos hídricos...

Waldman: Exatamente. A questão não é o fato de ela ser consumida, mas como é feito esse consumo e que tipo de impacto ela recebe.

AU: Então o que mais prejudica não é o uso em excesso, mas a poluição?

Waldman: Em geografia, falar em excesso é algo muito relativo, ou seja, não existe um valor absoluto para o excesso. Os rios sempre receberam poluentes, de dejetos de animais ou mesmo de humanos; o problema é a capacidade de diluição dos resíduos pelos sistemas naturais, que nem sempre estão em uma escala passível de incorporá-los. O que deve ser pensado é como esta água é usada e em qual escala a capacidade de suporte desses sistemas para purificar essa água, um limite que já foi ultrapassado há muito tempo.

AU: Mas a grande maioria das cidades não possui um sistema de coleta e tratamento de esgotos que cheguem a 100%. Isso não prejudica?

Waldman: Se pensarmos na questão da purificação dos recursos hídricos, não dá para falar só em termos de estações de tratamento, porque a água interage com alguns outros fatores, dentre eles o lixo. Um quarto da poluição dos recursos hídricos, das águas metropolitanas, decorre do lixo. Por exemplo, imagine toda a disposição de material particulado na atmosfera, a combustão dos veículos, o chorume que escorre do saco de lixo: quando chove, toda essa matéria é carregada pelas águas e isso representa 25% da poluição dos rios. Então, não adianta falar só de estação de tratamento de água, é preciso também haver uma boa política de lixo e energia, pois esses elementos estão interligados. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)



Publicado em: 6/10/2009

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