
Ambiente Urbano: Em todos esses anos de experiência, vivenciando temas como o desenvolvimento do homem, o consumo desenfreado, a corrupção, entre outros, na sua opinião, é possível reverter esse quadro de degradação ambiental? Como isso pode ser feito?
Paulo Nogueira Neto: É possível e até fácil reverter, mas para isso é preciso que haja decisão política. Eu fiz parte da Comissão Brundtland – uma Comissão das Nações Unidas de onde originou a idéia do Desenvolvimento Sustentável – e através dela foi possível viajar muito e conhecer muitas realidades. Os demógrafos que consultávamos afirmavam que a população do mundo explode nos lugares onde há miséria. Então, a miséria passou a ser nosso grande objetivo, para buscarmos a melhoria da qualidade de vida no mundo. Nós verificamos que, naquela época, gastavam mais ou menos um trilhão de dólares (se fosse considerado hoje) na compra de armamentos. Claro, todo país tem que ter forças armadas, da mesma maneira que precisa da polícia – faz parte da organização e ninguém discute isso –, mas gastar muito mais que o necessário para uma coisa que é feita para matar gente! Então, nós chegamos à conclusão de que a erradicação da miséria seria possível desde que houvesse vontade política, porque dinheiro tem de sobra.
Mas mesmo sem haver uma maior preocupação por parte dos países, notamos que há uma reversão no quadro de destruição completa. No Brasil há duas situações inteiramente contraditórias. Por um lado, vemos a situação da Amazônia, com desmatamentos, incêndios, que ainda não estão conseguindo reverter. Já os Estados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste apresentam uma reversão natural. Há cerca de quatro, cinco anos, a Universidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, realizou um levantamento para saber qual era a posição geral das florestas no Estado, e verificaram que havia dobrado o número de florestas plantadas.
As imagens de satélite mostram que, aqui em São Paulo e no Rio de Janeiro, o número de florestas aumenta todos os anos.
Quando passo pelas estradas de São Paulo, como a Via Anhanguera, a Castelo Branco ou a Raposo Tavares, noto que as matas estão voltando. Vejo muitas florestas novas, que estão começando agora e que ninguém plantou – quero dizer, os passarinhos que plantaram!
Vemos árvores de pequeno porte, crescendo; algumas árvores próprias do estágio inicial de sucessão ecológica, e ninguém fala nisso.
AU: Qual a sua opinião sobre a criação das Unidades de Conservação ou Áreas de Preservação?
Nogueira Neto: Sou altamente favorável às Unidades de Conservação (UC). Inclusive, o ministro [do Meio Ambiente] Carlos Minc me convidou para fazer parte do conselho do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, que dividiu o Ibama em dois. Eu sempre fui a favor do Instituto Chico Mendes, diferente da opinião dos meus amigos do Ibama, que fizeram uma greve contra isso. Eu fiz até discurso no Senado em uma audiência pública a favor do Chico Mendes, pois o Ibama estava grande demais e, quando uma instituição fica grande demais, não pode cuidar bem das coisas. Então havia muita queixa do Ibama.
As UCs merecem prioridade, pois é o que vai sobrar a longo prazo. As UCs têm que ter uma atenção especial. A estrutura do Ibama não é fácil, pois tem que cuidar de muitos assuntos diferentes, que exigem fiscalização, e não dá para fazer tudo.
A verba que vai para o Ibama, muitas vezes, não é destinada às UCs. Para se ter uma idéia, calcula-se que o Ibama gastava 12 milhões de reais por ano em Unidades de Conservação e agora vai passar para 100 milhões de reais com a mesma fonte de dinheiro. E o Chico Mendes só vai cuidar desta parte, é prioridade máxima!
AU: Como o crescimento da população pode interferir no meio ambiente?
Nogueira Neto: Toda vez que se eleva o nível de vida da população, a tendência é encontrar o equilíbrio, e isso acontece no mundo todo. O IBGE divulgou uma estatística mostrando que o número de nascimentos e de mortes está mais ou menos equilibrado.
Essa estatística é muito interessante, pois, no mundo todo, não é contado o número total de nascimentos – só contam o número de nascimentos por mulher. O número teria chegado a dois nascimentos por mulher: aí está o equilíbrio. O casal e a população ficariam equilibrados. Na Comissão Brundtland, nosso grande receio era esse: a população aumentava muito rapidamente, dobrando 2% ao ano naquela época. Em 36 anos, a população dobra e o máximo que o mundo agüenta é por volta de 10 a 12 bilhões de pessoas. É difícil quantificar precisamente, mas é nessa ordem que estamos caminhando. Já passamos dos sete bilhões; no entanto, agora creio que o crescimento será mais lento e deve parar. Mas, para isso, é preciso erradicar a miséria no mundo, pois ainda existem áreas onde a população aumenta mais do que deve, como na África.
AU: Uma reportagem publicada pela Folha de São Paulo divulgou que morrem cerca de mil pessoas diariamente na África vítimas da AIDS...
Nogueira Neto: O grande culpado disso, digamos assim, foi um presidente da África do Sul que não ocupa mais o cargo. Ele dizia que a AIDS não era doença, mas um distúrbio fisiológico, tanto que o Mandela teve uma briga com ele, mas ele defendeu isso durante anos. Essa visão atrasou completamente a prevenção. No Brasil, a AIDS está sob controle. Inclusive, é o país no mundo que mais gasta para controlar a AIDS. Na África, ainda é uma calamidade.
AU: O senhor acredita que atualmente exista uma maior preocupação com o desenvolvimento do Brasil em detrimento à preservação ambiental?
Nogueira Neto: Acho que existem dois Brasis: um que apresenta relativamente pouco controle, como é o caso da Amazônia, e outro com as florestas crescendo, localizado no Centro-Sul. São duas realidades bem diferentes.
AU: Em uma entrevista anterior, o senhor diz que é a favor dos militares na Amazônia, para que haja uma ação mais firme...
Nogueira Neto: Olha, eu acho que a função dos militares é mais estratégica: é para manter a soberania do País. Mas os militares se recusam completamente a tomar parte em qualquer ação e, geralmente, se recusam a tomar parte em campanhas para manter a natureza.
AU: Por quê?
Nogueira Neto: Porque eles acham que a função deles não é policial. Eu não tenho mais expectativa de que os militares possam dar uma ajuda nesse sentido, a não ser de forma indireta. Por exemplo, a Aeronáutica pode dar uma boa ajuda controlando os campos clandestinos de garimpo, a Marinha controlando a navegação dos rios... Mas não chega a ser uma ajuda completa; alguns aspectos podem ajudar. Agora, eles não querem se envolver com as apreensões, porque não querem se envolver em corrupção, e o comércio clandestino de madeira é uma grande fonte de corrupção. Centenas de pessoas no Ibama são demitidas por isso.
AU: Qual a sua opinião sobre o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama)?
Nogueira Neto: Sou Presidente da Câmara Técnica de Biodiversidade do Conama e lá o Conselho decide toda a regulamentação das leis feitas pelo Conama. O Congresso [Nacional] concedeu esse poder ao Conama para que fosse possível regulamentar as leis sobre o uso dos recursos naturais. Então, trata-se de um grande poder!
Agora, por exemplo, estão estudando o caso das pilhas e baterias e sobre como fazer para regulamentar o uso desse material. Sabemos que existem problemas enormes com esse resíduo; por isso, é preciso saber como recolher corretamente as pilhas usadas. Algumas pilhas mais comuns não apresentam maiores problemas e, de fato, são pouco poluentes em comparação com as pilhas antigas. No entanto, o conjunto é tão grande que representa problemas. Além disso, a pilha não é inócua, porque tem no seu revestimento o chumbo, que é altamente poluente. Existe um lobby enorme contra, as empresas não querem nem ouvir falar em recolher, mas tem que ter medidas para a coleta das pilhas... Uma pilhazinha, sozinha, não prejudica, mas quando são milhões de pilhas, isso se torna um problemão.
AU: O que o senhor acha dos biocombustíveis?
Nogueira Neto: Olha, em relação ao biocombustível, eu acredito que seja algo muito bom, mas tem que tomar cuidado, porque não vai dar pra resolver o problema de energia no mundo inteiro só com biocombustível. E, se houver um excesso de produção, a produção de alimentos pode ser prejudicada.
No Brasil, o risco é mínimo porque nós temos cana-de-açúcar, que só se dá bem em uma certa faixa, relativamente pequena. Esta área abrange São Paulo, Mato Grosso do Sul, sul de Minas, um pedacinho do Mato Grosso e uma parte de Goiás, mas a cana só pode ser plantada em uma faixa pequena. O cultivo de cana na Amazônia toda é impraticável, pois a colheita só se dá em estação seca e leva mais ou menos cinco meses. Já fizeram essa experiência e não deu certo; portanto, a gente pode ficar tranqüilo que a Floresta Amazônica não vai ser prejudicada com o cultivo da cana. Mas isso não significa que não possam plantar outra coisa, como a soja, por exemplo, que serve tanto para biocombustível como para alimento também.
Eu estou relativamente tranqüilo por um motivo: eu acho que os problemas energéticos no mundo vão ser resolvidos com a fusão nuclear; não a fissão que é o processo que existe hoje e é péssimo, pois produz plutônio, que é radioativo.
A fusão nuclear é a energia do Sol que funde dois núcleos de hidrogênio e um átomo de hélio. É a energia ideal, mas ainda não está pronta pra ser usada. Estão fazendo um grande laboratório no sul da França, gastando bilhões de euros. Inclusive a USP [Universidade de São Paulo] está se preparando para ter uma parte nessa experimentação.
AU: E não há riscos nessa fonte de energia?
Nogueira Neto: Será usado o lítio e o deutério, que são isótopos do hidrogênio, ou seja, dois tipos de hidrogênio que existem na água do mar. Não é uma fonte poluente e a radioatividade que ela pode produzir é completamente controlável, sem nenhum risco de explodir: basta desligar a energia e pára tudo. É muito diferente da fissão nuclear, que parte o átomo de urânio, e a fusão funde átomos de hidrogênio. Esse sistema vai produzir energia para o mundo todo em grande quantidade. Talvez dê origem à civilização do hidrogênio, uma vez que estamos na civilização do carbono – grande parte das nossas cidades é feita com carbono, que provoca o efeito estufa, um problema sério. Então, com essa energia, barata em grande quantidade, fica muito fácil produzir a hidrólise, que é separar o hidrogênio que está na água. O problema é que não é muito fácil remanejar o hidrogênio, mas já tem muita gente usando esta fonte de energia. Hoje vemos até carro movido a hidrogênio.
Eu acredito que a fusão nuclear vai ser muito melhor para a natureza do que a hidrelétrica, que produz carbono indiretamente. Todo mundo pensa que ser contra a construção de hidrelétricas na Amazônia é um capricho, mas não é.
AU: E com relação aos transgênicos, qual a sua opinião?
Nogueira Neto: Em princípio, eu não sou contra. Para mim, os transgênicos são como remédio: não se pode usar um medicamento sem que se comprove que ele é relativamente bom, porque o remédio pode curar, mas também mata se usar demais.
Então, tem que ser bem estudado; não é qualquer transgênico que serve. Por exemplo, o transgênico do algodão pode representar um perigo em potencial para as abelhas. A planta produz flores e, se nesta flor tiver genes de um fungo que combate os insetos, ele pode matar as abelhas e, com isso, pode-se causar um problema seriíssimo de falta de polinização.
Agora, não podemos exagerar. A Argentina inteira usa transgênicos. Toda a soja da Argentina é transgênica e ninguém descobriu doenças novas, não morreu gente por causa disso. Então, o transgênico pode ser bom e pode ser péssimo, vai depender de como será usado. Neste caso, a Embrapa é bastante cuidadosa. No Brasil, infelizmente, isso virou debate político, se é a favor ou contra. Para mim, depende. Não sou nem a favor nem contra o remédio: eu sou a favor do remédio que cura, mas não vamos tomar remédio de qualquer jeito. Com o transgênico também temos que tomar muito cuidado.
AU: Com relação aos crimes ambientais mais recentes, como o assassinato da freira Dorothy Stang e do ambientalista Dionísio Júlio, da Reserva Biológica do Tinguá [no Estado do Rio de Janeiro], o Governo tomou alguma providência para que crimes desta natureza não ocorram mais?
Nogueira Neto: Olha, essa pergunta é muito difícil de responder, porque a justiça que cuida do crime não é federal, mas estadual, e no Estado do Pará e em alguns Estados da Amazônia, os juízes são muito influenciados pelos secretários locais, pelos madeireiros. Então, isso se torna um problemão! Eu acho que é possível controlar, o Minc está cuidando disso. Mas o descaramento, a impunidade deles é enorme! A irmã Dorothy não foi assassinada por um sujeito que estava escondido atrás de um tronco na floresta... Não, ele chegou no meio de um bando de gente e disse: eu vou matar você! E matou. Quando a impunidade chega a esse ponto, é o fim!
Apesar de ser um problema extremamente difícil, precisa ser combatido. É um problema basicamente de justiça e ordem. E prender não só os assassinos, mas também os mandantes, não é nada fácil. Lá no meio do mato ninguém fica sabendo. Se fosse aqui em São Paulo, seria diferente. O grande problema desses assassinatos é fazer a justiça chegar lá no sertão.
AU: E aqui em São Paulo, ainda é possível recuperar os Rios Tietê e Pinheiros?
Nogueira Neto: Eu acho que há um grande esforço para isso. Veja a reforma da calha do Tietê, possivelmente a maior obra de saneamento básico da América Latina, com dinheiro japonês – diga-se de passagem, graças aos japoneses!
Mas a idéia é tratar o esgoto antes mesmo que ele chegue ao rio. A calha ajuda, mas é uma parte da solução. O ideal é que haja a participação de todas as cidades, com incentivos, é claro, pois o município não pode arcar sozinho. Deve haver um programa nacional, como até chegou a ter em uma ocasião, mas que acabou.
A Sabesp, por exemplo, é bem aparelhada para água e esgoto, mas ainda precisa de mais investimento. Às vezes, a Sabesp constrói a estação de tratamento e o município não constrói os coletores para levar o esgoto.
AU: Como cada cidadão pode colaborar para enfrentar as mudanças climáticas?
Nogueira Neto: É possível colaborar de várias maneiras, seja usando racionalmente a água, deixando de fumar – que não é fácil, mas é possível –, colaborando para tornar possível práticas de reciclagem, optando por combustíveis menos tóxicos, enfim, são ações simples.
AU: Qual o conselho que o senhor deixa aos leitores da Ambiente Urbano?
Nogueira Neto: A gente não deve ser exageradamente otimista para não sermos ingênuos, porque quase nada é fácil. Tudo dá muito trabalho, principalmente contornar problemas e dificuldades. Mas ter uma atitude pessimista também não ajuda, pois quem é pessimista não faz nada. Então, entre os dois, é melhor ser moderadamente otimista e acreditar que existe solução, trabalhar para que a solução seja efetivada. A nossa função como ambientalistas é essa. Vamos reconhecer que há dificuldades, mas vamos também reconhecer que existem soluções e, numa maneira mais ampla de ver as coisas, a gente tem que trabalhar na busca de soluções. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)