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Entrevista
Mário Sergio Cortella

Cidadania é vida plena para todos

Com o conceito ainda pouco compreendido pela população, o filósofo, mestre e doutor em educação Mário Sérgio Cortella, esclarece nesta entrevista os verdadeiros conceitos de ética e cidadania e como eles se aplicam para melhorar os ambientes urbanos.

Ambiente Urbano - O que é cidadania? O brasileiro compreende o seu real sentido?

Cortella - No Brasil, a idéia de cidadania é diferente da que é utilizada em outros países. Fica muito estranho, por exemplo, um norte-americano entender o que é cidadania. O que eles e os europeus chamam de cidadania são a capacidade de votar, de ser votado, a participação no jogo político do cotidiano. Para nós, a cidadania é a partilha dos bens que uma sociedade gera coletivamente, ou seja, a possibilidade de se ter vida máxima na condição.

AU - Quando falam que "é preciso resgatar a cidadania", o que o senhor entende por esta expressão?

Cortella - Esta é uma frase estranha, que muitas pessoas utilizam de forma equivocada. Quando se fala em resgate, supõe-se que algo já existiu e que você vai buscar de novo e, na verdade, nós nunca tivemos cidadania completa. Nós temos, paulatinamente, movimentos e avanços em relação a uma completude da vida cidadã, mas nós temos milhares e milhares de homens e mulheres fora da estrutura de escolarização formal, pessoas que não têm uma habitação digna. Isso significa que, primeiro, não se pode falar em "resgate da cidadania", mas sim em construção da cidadania. E cidadania é vida boa, e vida plena para todos e todas. Em uma democracia, qualidade de vida é qualidade para todos e todas; em outras palavras, qualidade exige quantidade total. Qualidade sem quantidade total não é qualidade: é privilégio.

AU - Como assim?

Cortella - Por exemplo, São Paulo é uma cidade na qual se come muito bem. Mas, quem come? Quem come o quê? É uma cidade que tem mais de duas centenas de cinemas, que tem perto de cem teatros e museus, mas quem pode freqüentá-los? As melhores estruturas hospitalares e equipamentos estão na cidade de São Paulo, mas quem tem acesso a eles? Portanto, este é um ponto central. Qualidade social obriga quantidade total.

AU - Se cidadania é acesso à vida plena então, o que é ética?

Cortella - Ética é o conjunto de valores e princípios que nós usamos para reger a nossa convivência. Há pessoas que têm valores e princípios cuja convivência é entendida como sendo aquela da cidadania plena. Há outros que têm uma ética do privilégio. É preciso ter cautela para não cairmos na armadilha de supor que existe gente sem ética. Não há ninguém sem ética, existe gente com uma ética diversa, por exemplo, da minha ou da tua. A ética é sempre coletiva, nosso sonho é que ela seja universal.

AU - Por que as empresas e indústrias vêm falando tanto sobre responsabilidade socioambiental, sendo que eles têm como fim o comércio e o lucro, fazendo uso dos recursos naturais para isso?

Cortella - Existe aí, na verdade, uma cumplicidade entre o produtor e o consumidor, que é a chamada ética da conveniência: se é bom para mim, é bom para ele, então nós fazemos, não importando se é certo ou não. O segundo ponto é que uma parte das empresas pratica responsabilidade socioambiental porque este foi um movimento que a própria sociedade no Ocidente conduziu. Há um esgotamento muito grande do nosso modo de viver e produzir, seja pela própria existência de padrões de poluição e de degradação ambiental ou da vida urbana muito fortes, e isso leva a uma certa insuportabilidade dessa vida em conjunto.

AU - As empresas enxergam as pessoas como consumidores e não como cidadãos. Isso é bom ou ruim?

Cortella - Não é tarefa da empresa enxergar alguém como cidadão, este papel cabe ao poder público, pois cidadão é um conceito político e não de mercado. O que nós não podemos é nos relacionarmos com o poder público como se fôssemos consumidores, ou seja, eu pago um serviço à prefeitura e ela tem que limpar minha rua. Eu tenho que me relacionar como cidadão, pois eu também sou proprietário da praça e da rua.

AU - O que o senhor tem a dizer sobre a visão do brasileiro sobre o conceito de política?

Cortella - Há pessoas que acham a palavra cidadania nobre e a palavra política suja. Acham que falar sobre cidadania é algo que engrandece e falar em política é algo que rebaixa. Quero lembrar que isso é uma tolice, porque cidadania e política significam a mesma coisa, só que uma vem do grego (polis) e a outra do latim (civitatem). O Brasil passa muitas vezes por uma degradação do conceito de política porque se confunde com política partidária, e isso faz com que algumas pessoas abracem a noção de cidadania e rejeitem a idéia de política. Alguns afirmam não se envolver com política, no entanto, em uma sociedade com diferenças, colocar-se como neutro é ficar ao lado de quem vence, e não existe neutralidade em uma sociedade de interesses diferenciados.

AU - Percebemos que a sociedade se relaciona de uma forma muito distanciada, reconhecendo cada vez menos que o outro é o seu semelhante e elevando cada vez mais o medo do próximo. Por que isso acontece?

Cortella - Primeiro,é preciso fazer uma distinção para falar em cidade. Pessoas vivendo em um mesmo ambiente pode ter dois resultados: ou elas formam uma comunidade ou elas formam um agrupamento. A diferença é que em uma comunidade as pessoas vivem juntas, têm objetivos partilhados e mecanismos de autoproteção e de preservação recíproca. Num agrupamento não, a regra é “cada um por si e Deus por todos". Muitas cidades já foram comunidades e hoje são meros agrupamentos.

AU - E em que momento nesta trajetória nós degradamos a nossa convivência?

Cortella - No momento em que nós substituímos as nossas relações pessoais, nossas relações de solidariedade, quando passamos a competir ao invés de cooperar. Mas existem ainda ilhas de cooperação, como, por exemplo, as favelas. A pobreza é cooperativa; as classes médias são acovardadas; as elites, então, nem se discute. As classes médias não se metem na vida alheia, mas o não se meter significa também nem se dar conta se o outro tem alguma necessidade de apoio. A maior parte das pessoas em uma metrópole mal sabe o nome de um vizinho da porta da frente. Eu digo isso porque as cidades deixaram há muito tempo de ser comunidades. Primeiro, porque elas se hiperdimensionaram; segundo, porque elas geraram uma força de estranheza entre as pessoas pela contínua disputa de espaço urbano. E essa disputa não é apenas por moradia, mas também por um lugar no restaurante, no trabalho, no transporte, na escola, e isso fragmenta qualquer forma de solidariedade.

AU - O senhor acredita que a reversão desta realidade é possível?

Cortella - Sim, acredito por duas razões: a primeira delas, como diz Guimarães Rosa, “o sapo não pula por boniteza, ele pula por precisão”, ou seja, ou a gente reverte ou morre. Não se trata de um impulso romântico, mas de uma necessidade. Nós criamos imensas facilidades nos últimos cinco anos para a venda de carros individuais no País e agora estamos achando insuportável a vida nas metrópoles porque o trânsito não anda. Mas é evidente que isso aconteceria, afinal, nós não criamos estrutura de transporte de vida coletiva, só jogamos no individual. Tenho a necessidade de ver que nós, os mesmos humanos que inventamos o inferno, também podemos desinventá-lo, afinal esta é uma construção humana e, portanto, é ação política. (Fonte: Revista Ambiente Urbano)



Publicado em: 16/7/2009

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