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Entrevista
Viviane Senna

O Instituto é a concretização de um sonho do Ayrton

Dois meses antes de sofrer o acidente fatal que lhe tirou a vida, o tricampeão mundial de Fórmula 1, Ayrton Senna, confessou para a irmã, a psicóloga Viviane Senna, o seu desejo de criar um projeto para beneficiar pessoas menos favorecidas; no entanto, não sabia por onde começar. No mesmo ano de sua morte, 1994, Viviane concretizou o sonho do irmão e fundou o Instituto Ayrton Senna. Em 15 anos, as soluções educacionais do Instituto transformaram a vida de exatamente 11.640.930 crianças e jovens, em todo o Brasil, além de capacitar 553.512 educadores. Desde 1994, foram investidos R$ 203.417.308 nessas soluções. No entanto, como a própria Viviane afirma, “muito ainda tem de ser feito para que a educação, de fato, seja aquela que todos os brasileiros merecem receber”.

Ambiente Urbano: Em sua opinião, o atual modelo educacional forma o ser humano por completo?

Viviane Senna: A educação pública do País apresenta, hoje, um cenário que garante quantidade - há vagas nas escolas para a grande maioria -, mas falta qualidade. Ou seja, o que a criança recebe na escola pública não dá conta de ajudá-la a prosseguir na sua trajetória escolar com sucesso. E há, basicamente, três razões para isso: ela não consegue sequer se alfabetizar; consequentemente, não consegue aprender e permanece na mesma série mais de uma vez; e por último - que é gerado pelas duas razões anteriores -, ela abandona a escola porque se sente incapaz e desestimulada. Fica muito difícil essa criança conseguir estruturar-se, ter uma elevada autoestima, prosseguir nos estudos, inserir-se, mais tarde, no mercado de trabalho, ser um ótimo pai ou mãe de família, saber se posicionar frente às questões políticas e sociais do País. 

AU: Qual o caminho para uma educação completa, que seja realmente transformadora e que faça a diferença na vida de uma criança e da sociedade?

Viviane: Garantir educação de qualidade é o grande desafio do País.
Infelizmente, a base dessa educação - o Ensino Fundamental - nunca foi prioridade no Brasil. Só nos últimos anos, o poder público e a sociedade como um todo estão percebendo a necessidade de se buscar saídas eficazes que garantam, na base, uma educação adequada, capaz de oportunizar o desenvolvimento de crianças e adolescentes, para que tenham sucesso na vida.
Penso que o Ensino Fundamental, especialmente as quatro primeiras séries, é como a largada na F1. Se for bem feita, com o arranque necessário, no tempo perfeito, você pode vencer a corrida. Ou damos uma boa "arrancada" a essa geração ou ela ficará na largada, sem qualquer chance de vitória.

AU: Quais são os programas desenvolvidos pelo Instituto Ayrton Senna?

V
iviane: Criamos e implemen-tamos soluções educacionais que podem ser aplicadas em larga escala e que permitem a gestão da educação, beneficiando milhares de crianças e jovens da rede pública de ensino.
Na educação formal, temos o Se Liga, que combate o analfabetismo e prepara o aluno para entrar no Acelera Brasil, que, em um ano, dá à criança os conhecimentos necessários de que precisa para retornar à rede regular; o Circuito Campeão, voltado para o direcionamento e acompanhamento das séries que compõem a 1ª fase do Ensino Fundamental; e o Gestão Nota 10, que propõe soluções e monitoramento para problemas que possam afetar o bom desempenho do aluno e capacita as lideranças das secretarias de Educação e das escolas. Na área de Educação Complementar, temos programas que implementam metodologias inovadoras para qualificar o tempo em que o aluno não está na escola, utilizando arte, esporte e um trabalho diferenciado com os jovens para que desenvolvam competências e habilidades essenciais ao seu dia-a-dia. Na área de Educação e Tecnologia, são desenvolvidos o Escola Conectada, que trabalha o uso criativo da tecnologia para gerar mudanças na comunidade escolar, e o Comunidade Conectada, que promove a inclusão digital, potencializando a educação através da tecnologia.

AU: Como os programas que atuam nas redes de ensino são implementados? Quais os critérios para a escolha dos locais que receberão o projeto?

Viviane: Os programas do Instituto são implementados em parceria com as redes públicas de ensino - municipais e estaduais. Antes de a secretaria de Educação começar a atuar, em primeiro lugar é preciso ter a decisão política do governador, do prefeito ou secretário de Estado ou do município, que nos procura em busca de uma de nossas soluções porque conheceu de alguma forma os resultados em alguma rede parceira. O Instituto oferece o know-how, materiais, formação e dimensiona a estrutura necessária para a implantação do programa de acordo com as necessidades de cada uma das redes de ensino.

AU: Uma escola ou comunidade pode procurar o IAS para fazer parte de algum programa?

Viviane: A implementação dos programas é feita por meio das secretarias de ensino. Ou seja, se uma escola deseja ter nossos programas, o diretor deve conversar com o secretário de Educação para que a implementação aconteça não só naquela comunidade escolar, mas em toda a rede. Porque as mudanças que podem qualificar a educação não terão o efeito desejado se pensadas pontualmente. É preciso que a escala seja garantida.

AU: De que forma o IAS trabalha com alunos que têm dificuldades no aprendizado e defasagem de série e idade? Como funciona este programa?

Viviane: Temos dois programas que chamo de "emergenciais" porque são implementados para resolver os problemas que estão ali, na rede de ensino, impedindo o desenvolvimento dos alunos. O primeiro é o Se Liga, que combate o analfabetismo nas primeiras séries do Ensino Fundamental. Isto porque a grande maioria dos alunos que repete de ano uma, duas, três vezes não sabe sequer ler e escrever. Depois de alfabetizados, eles são encaminhados ao segundo programa, o Acelera Brasil, que tem como objetivo reduzir os índices de repetência e corrigir o fluxo escolar através da aceleração da aprendizagem.
Em um ano, o aluno que está defasado - porque repetiu - recebe os conhecimentos de que precisa para retornar à rede regular e, assim, prosseguir nos estudos.
Esses professores já atuam na rede pública e participam de uma capacitação inicial que é o momento em que tomam contato com a dinâmica e a proposta pedagógica a ser adotada em sala de aula. Eles recebem, além de acompanhamento constante, materiais pedagógicos específicos.
Outro diferencial é o SIASI - Sistema Instituto Ayrton Senna de Informações, um software exclusivo para o acompanhamento de todos os programas implementados nas redes. Ele permite o monitoramento on-line do que está acontecendo com os alunos. Quando constatamos algum problema em determinada escola, os coordenadores são acionados para acompanhar o processo e corrigir problemas, evitando maiores prejuízos ao aprendizado.

AU: O Estado e a iniciativa privada contribuem, apoiando os programas para crianças com defasagem de aprendizado?

Viviane: Nosso trabalho só é uma realidade porque está sustentado pelo tripé formado por poder público, empresariado e sociedade civil.
As prefeituras e os governos estaduais assumem o compromisso político de ajudar a garantir educação de qualidade nas suas redes, disponibilizando infraestrutura e pessoal para realizar os programas nas secretarias de ensino e nas escolas. O empresariado investe recursos para que toda a logística necessária aconteça, porque acredita na causa e na seriedade de nosso trabalho. E nós, como sociedade civil, disponibilizamos o know-how de soluções educacionais testadas e avaliadas interna e externamente.
Todas estruturadas para serem replicadas em qualquer parte do País.
Sozinhos, jamais conseguiríamos dar conta de nosso trabalho com o mesmo impacto e amplitude, alcançando resultados  tão expressivos.

AU: Como a senhora avalia a participação das empresas nesse processo de incentivo às ações sociais. Em sua opinião, há uma real compreensão da questão da responsabilidade social?

Viviane: As empresas socialmente responsáveis têm representado um papel cada vez mais ativo, através de projetos próprios e de parcerias com organizações não-governamentais. O nosso trabalho mostra como essa parceria dá certo: hoje atuamos em 26 Estados e Distrito Federal em alian-ça com cerca de 80 empresas, como Bradesco, Credicard, Microsoft, HP e a Vale. Essas parcerias garantem parte dos recursos anuais investidos em nossos programas. A outra parte vem dos 100% dos royalties sobre uso da imagem de Ayrton Senna e do personagem Senninha, doados por minha família ao Instituto. Temos, atualmente, 240 produtos licenciados. Por fim, outra parte é a doação feita por pessoas físicas que também querem abraçar a causa da educação. Elas se cadastram em nosso site e passam a contribuir para os programas educacionais do Instituto.



Publicado em: 4/8/2009

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