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Revista Ambiente Urbano Revista Ambiente Urbano - Ano 3 - nº25 - Maio de 2008
Autor Escrito por Fernanda Correia
 
Cidades saudáveis
Quando se fala em qualidade de vida, o que vem em sua mente? Ter uma casa ampla e confortável? Praticar exercícios físicos regularmente? Ter acesso a condições de trabalho e lazer? Caminhar nas ruas sem medo da violência? Na verdade, uma vida de qualidade só é conquistada com a união de vários aspectos - coletivos e individuais - que abrangem os campos físico, social e mental. Quando o tema é aplicado em ambientes urbanos, percebemos que nem sempre é possível conjugar esses aspectos de forma harmônica, pois as cidades ainda imprimem padrões de insustentabilidade em diversos níveis.

Cidades Saudáveis 

O ambiente urbano possui algumas características que contribuem para a falta de qualidade de vida. Nas cidades, o afastamento do contato com a natureza, a elevada concentração de pessoas em um espaço reduzido e a predominância de atividades industriais e comerciais fazem com que o padrão de vida tenha uma tendência a decair, pois é a partir da união de fatores como estes que surgem os problemas do trânsito, da poluição, da violência, das habitações precárias etc.

Alguns chegam até mesmo a pensar que a qualidade de vida em ambientes urbanos é algo utópico, impossível, mas se pensarmos assim e não fizermos nada para melhorar o nosso entorno, a qualidade de vida nunca será atingida.

Problemas Urbanos

Um dos maiores problemas que as grandes cidades enfrentam hoje em dia é a superpopulação. Alguns estudos e projeções revelam que, em alguns anos, mais pessoas deverão migrar para as cidades e, com isso, as áreas urbanizadas passarão a ocupar cada vez mais espaço terrestre.

Essas regiões são disputadas por terem uma característica comum: abrigar populações que buscam melhores condições de sobrevivência. “Regiões como a Grande São Paulo, por exemplo, tem a forte tendência em abrigar refugiados ambientais”, afirma o presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), Carlos Bocuhy. Segundo ele, essas pessoas quase sempre vêm de Estados que têm dificuldades em manter seus ecossistemas saudáveis para que elas possam ter uma qualidade de vida. "Essa migração se dá por uma questão de sobrevivência", completa.

Especialistas também alertam que as mudanças climáticas, provocadas pelo aquecimento global, causarão grandes secas e inundações no planeta, fazendo com que muitas pessoas que hoje vivem nestas áreas - possivelmente afetadas no futuro - busquem refúgio nos centros urbanos.

No Brasil, a população que vive em áreas urbanas já ultrapassa 75% do total da população do País e estima-se que nos próximos 20 anos 85% dos brasileiros vivam em cidades.

Sem dúvida, esse crescimento das metrópoles é um dos responsáveis pela queda da qualidade de vida e pelos desequilíbrios ambientais. Os conglomerados urbanos são grandes consumidores de recursos naturais e responsáveis por gerar enormes quantidades de lixo. A contaminação do ar, do solo e da água, por conta das atividades desempenhadas, interfere também na saúde da população. Neste caso, problemas respiratórios, epidemias e estresse são apenas alguns exemplos. De acordo com o geógrafo Paulo Moraes, as aglomerações criam um ambiente propício para a expansão de doenças. “A humanidade já passou por diversas epidemias, mas nunca com o quadro urbano que temos hoje. Essa proximidade de pessoas pode facilitar o acesso à informação, mas também contribui para uma transmissão de doenças muito mais veloz”, explica.

Para reverter situações como essa, a geógrafa Helena Ribeiro acredita que as políticas públicas são a saída para controlar os riscos aos quais as pessoas das cidades estão expostas. “Para se obter uma melhor qualidade do ar, por exemplo, é necessário que haja uma maior eficiência do transporte coletivo e isso só depende de políticas públicas. As ações individuais também são importantes neste caso, afinal, se a população não colaborar, as políticas públicas não funcionam”, alerta Helena.

As cidades também desempenham atividades que contribuem muito para o aquecimento global, principalmente por conta da emissão de poluentes. A capital paulista possui uma frota com cerca de seis milhões de veículos, que continua crescendo a cada dia. Além de comprometer a mobilidade, esses automóveis são responsáveis por cerca de 90% da emissão de gases de efeito estufa, segundo o Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa da Cidade de São Paulo, realizado pela Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Além disso, a concentração urbana é o palco ideal para despertar as competições, principalmente entre a mídia. Seja a televisão que, pela busca desenfreada de audiência, provoca um bombardeio diário de notícias sensacionalistas, que pouco informam e muito contribuem para elevar o nível de estresse da população, ou mesmo a publicidade, que interfere na paisagem das cidades e invade a vida das pessoas, incentivando-as a consumir até mesmo o que não é necessário.

Simplicidade Voluntária

"Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendêlo e preservá-lo para as futuras gerações".

Este texto refere-se ao artigo 225 da Constituição Federal e institui o nosso direito de viver em um ambiente sadio e equilibrado. Mas nem sempre isso ocorre na prática.

Houve um tempo em que a natureza ainda ditava o estilo de vida do homem, que agia de acordo com os ciclos naturais, sem interferir em quase nada. Com a criação das cidades, o ser humano foi quem passou a ditar as regras de sobrevivência, afastando-se cada vez mais do contato com os aspectos simples da vida. E o preço que pagamos por este padrão de vida é alto. Além da falta de contato com os ambientes naturais, nossas atividades exploram a biodiversidade, causando uma série de desequilíbrios nos ecossistemas e que refletem na nossa qualidade de vida.

Hoje, muitas pessoas estão percebendo que o atual ritmo de vida das cidades não contribui para uma vida saudável e, por isso, tentam mudar o modo de viver, adotando novos hábitos. Algumas pessoas vêm resgatando uma forma de vida menos complicada, como é o caso do movimento “Simplicidade Voluntária”, que sugere um modo de viver calcado na simplicidade, no qual as pessoas examinam o que é realmente importante para as suas vidas e passam a minimizar preocupações em termos de riqueza e consumo.

Esses indivíduos valorizam mais o "ser" do que o "ter" e, mesmo vivendo em grandes cidades, onde é muito comum levar uma vida oposta a isso, eles optam em dizer não ao consumismo e acreditam que uma vida melhor é possível, mesmo convivendo em um ambiente com uma série de problemas.

Essa filosofia de vida, surgida nos Estados Unidos no início da década de 80, sugere que a pessoa examine os rumos de sua vida: se caminha para a felicidade ou não, quais os aspectos que trazem real satisfação e como neutralizar os itens de insatisfação. Com isso, passam a descomplicar o modo de viver. Ao contrário do que alguns possam acreditar, o movimento não prega a pobreza. Como diz o escritor Duane Elgin em seu livro "Simplicidade Voluntária", "a pobreza é involuntária e debilitante, a simplicidade é voluntária e mobilizadora".

Este livro mostra que é possível conciliar a agitada vida urbana com as nossas necessidades interiores de calma, tranqüilidade e comunhão com a natureza.

Ações

Iniciativas em diversas partes do mundo estão sendo criadas visando transformar as cidades em ambientes para uma vida melhor. Hoje é possível compreender que para se ter uma vida saudável é preciso que haja uma boa relação entre o homem e o ambiente natural e isso só será possível com adequações dos hábitos da própria população associados a políticas públicas.

O grande desafio, portanto, é tornar as metrópoles sustentáveis. O Movimento Nossa São Paulo, formado por cerca de 400 entidades da sociedade civil, tem como missão promover ações para tornar São Paulo uma cidade melhor em vários sentidos. Para isso, em janeiro deste ano, o Movimento divulgou uma pesquisa, realizada com o objetivo de encontrar indicadores que ajudem a medir o que precisa ser melhorado e modificado na cidade. Ações como esta são adotadas pelo Movimento como ferramentas capazes de comprometer a sociedade e os sucessivos governos com uma agenda e um conjunto de metas, a fim de oferecer melhor qualidade de vida para todos os habitantes da cidade.

O Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) também trabalha pela promoção da qualidade de vida nas grandes cidades. Com o programa Metrópoles Saudáveis o Proam encontrou uma série de processos, que visam a melhoria da qualidade de vida de quem mora nesses ambientes.

A partir da identificação dos culpados pela degradação das cidades - que vão desde a especulação imobiliária até a violência urbana, o desconforto térmico, a poluição, a dificuldade de mobilidade etc. - foi criado um Termo de Referência para Metrópoles Saudáveis. “Quando criamos este termo, não foi no sentido utópico, mas de reivindicar o direito de todos que vivem nestas regiões”, explica Bocuhy.

O Termo de Referência para Metrópoles Saudáveis foi elaborado por mais de 200 especialistas da área da saúde ambiental e é uma experiência pioneira pelo seu enfoque na saúde urbana. Segundo Bocuhy, este Termo será utilizado como instrumento para políticas públicas pelos Ministérios da Saúde do Brasil e da Argentina, e será, ainda, encaminhado à Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS/OMS), ao Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambiente (PNUMA), à Organização dos Estados Americanos (OEA) e à Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Iniciativas como estas só vêm a comprovar que o trabalho conjunto é o caminho para a construção e reorganização dos espaços. E isso se faz no presente, a partir de parcerias entre o poder público e a sociedade civil, com as atividades sendo desenvolvidas sem colocar em risco os recursos do ambiente.

Ao tomarmos conhecimento desta e de tantas outras iniciativas praticadas pelo mundo, reacende em nós a esperança de que um ambiente urbano saudável não é uma utopia, mas sim um projeto que se constrói no presente para um futuro melhor.

Busque o verde!

Estar em contato com ambientes naturais é uma das premissas para uma vida de qualidade e, para isso, não é preciso viajar quilômetros. As cidades estão cada vez mais preocupadas em criar parques e áreas verdes para o lazer e bem-estar da população. O Grande ABC é uma região muito rica nesse quesito. Para se ter uma idéia, São Bernardo do Campo possui quase 50% de seu território coberto pelo verde. Em Santo André, que conta com 17,38 m² de área verde por habitante, é possível até mesmo conhecer uma cachoeira, localizada no parque Nascentes de Paranapiacaba, por meio de visitas monitoradas.

A cidade de São Paulo, que quase não parece ter áreas verdes, também surpreende quando são contabilizadas as áreas naturais. O último levantamento feito em 1998, segundo dados do Atlas Ambiental de São Paulo, mostra que a cobertura vegetal da cidade corresponde a 21% de seu território. De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, nos próximos meses será contratado o serviço de monitoramento por satélite para aferir a situação atual que deverá revelar um aumento do índice de cobertura vegetal, já que neste período foram realizados vários programas para a ampliação e manutenção das áreas verdes.

A cidade de São Paulo conta hoje com 41 parques e até o final deste ano deverá ter 66. A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente avisa que, nos próximos quatro ou cinco anos, a cidade terá condições de abrigar cem parques. A capital também possui cachoeiras que podem ser visitadas pela população. Para isso, basta entrar em contato com algumas agências de turismo, como a Trip on Jeep Ecoturismo ou a W Eventos e Viagens, que oferecem pacotes para a região que incluem passeio nas cachoeiras.

Dicas para desacelerar e curtir melhor a vida na cidade!

1. Pare de fazer várias coisas ao mesmo tempo...  Esqueça o celular e a TV durante as refeições. Quando estiver dirigindo, procure também não falar ao celular.

2. Insira atividades simples no seu dia-a-dia. Procure ficar mais tempo com seus amigos, com seus filhos e com seu companheiro ou companheira.

3. Ao comprar algo novo, dê preferência aos produtos mais duráveis, de fácil manutenção, não-poluidores, funcionais e estéticos.

4. Seja voluntário! Pesquisas já comprovaram que ajudar alguém ou alguma causa traz benefícios até para a saúde.

5. Em nossa cultura, fazer nada é algo negativo. As pessoas estão sempre em busca de algo para preencher o tempo... Se você também pensa assim, mude seu pensamento. Procure tirar alguns momentos do seu dia para não fazer nada.

6. Perceba mais os momentos simples de sua vida, como o silêncio, abraços e beijos. Enxergue com outros olhos a beleza que existe em uma flor ou em uma árvore.

7. Sinta-se conectado a tudo e a todos. Perceba a ligação que existe entre você e tudo que está ao seu redor.

8. “Quem canta seus males espanta”! Este sábio ditado popular tem razão. Através da voz, os seres humanos expressam seus sentimentos e cantar pode eliminar uma série de más sensações. Seja no carro, no chuveiro, na cozinha, não importa: o que vale é soltar a voz!

9. Brinque mais. Deixe um pouco as preocupações de lado para brincar com os filhos, sobrinhos, netos... Se não tiver crianças ao seu redor, brinque com o seu cachorro.

10. Não perca o contato com seus amigos. Procure aqueles que você não vê há anos, escreva-lhes cartas, convide-os para sair.

Maiores Informações

Os sites abaixo são indicados para quem deseja conhecer mais sobre a Simplicidade Voluntária:

» www.simplicidade.net
» www.simplicidadevoluntaria.com
» www.awakeningearth.org (em inglês)

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