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Revista Ambiente Urbano Revista Ambiente Urbano - Ano 3 - nº26 - Junho de 2008
Autor Escrito por Fernanda Correia
 
Recursos naturais são fator escasso no mundo hoje. Eles é quem deveriam ter a maior valorização

O entrevistado desta edição da revista Ambiente Urbano já foi repórter, editor e colunista de importantes veículos de comunicação do País e é um dos maiores conhecedores das questões ambientais do Brasil e do mundo. Washington Novaes trabalhou na revista Veja, nos jornais O Estado de São Paulo (onde assina uma coluna semanal), Folha de São Paulo, Última Hora, Correio da Manhã, Gazeta Mercantil, entre outros. Na televisão, foi editor do Jornal Nacional, editor-chefe do Globo Repórter e hoje supervisiona o Repórter Eco, da TV Cultura.

O jornalista dirigiu vários documentários, entre eles as séries "Desafio do Lixo", veiculada na TV Cultura, gravada em nove países e 10 estados brasileiros, "Xingu" e "Primeiro Mundo é Aqui", sobre biodiversidade.

Nesta entrevista à revista Ambiente Urbano, Washington fala sobre a saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente, sobre a Agenda 21 Brasileira e lamenta o fato de o governo federal não priorizar o tema ambiental em suas decisões e de a sociedade brasileira ainda não saber se organizar para exercer a sua cidadania.

Washington NovaesClique na foto para ampliar.
Washington Novaes

ENTREVISTA - Washington Novaes 

Ambiente Urbano: Na sua opinião, o que levou Marina Silva a pedir demissão do cargo no ministério do Meio Ambiente?

Washington Novaes: É difícil afirmar o motivo da saída, mas é pouco provável que o presidente não imaginasse que ela poderia pedir demissão com a nomeação de outro ministro [Mangabeira Unger, ministro Extraordinário de Assuntos Estratégicos] para coordenar o Plano Amazônia Sustentável [PAS]. Ela já vinha há um tempo numa relação de desgaste, mas é quase impossível acreditar que o presidente não tenha cogitado que essa nomeação, sem o conhecimento e a concordância da ex-ministra Marina Silva, poderia ocasionar no pedido de demissão.

Ambiente Urbano: Então o senhor acredita que a indicação de Mangabeira Unger para a coordenação do PAS teria sido o principal motivo?

Washington Novaes: Eu acho que isso deve ter sido a gota d'água para ela. Eu penso que o governo tem como prioridade a questão dos índices de crescimento econômico e não as questões ambientais, o que tem gerado uma porção de atritos nesta área.

Há quem acredite que entre as razões se incluiria o início do processo de licenciamento da hidrelétrica de Belo Monte, no Baixo Xingu. Há também quem suponha que se tratou de prevenir um confronto com áreas militares, no caso da demarcação contínua da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, em que já se antevê possibilidade de algum recuo do governo federal. Há quem veja a oposição da ministra à usina de Angra 3 e a outras nucleares que o governo decidiu implantar. Além disso, Marina sofreu várias derrotas durante o tempo em que esteve no ministério, como por exemplo, a aprovação dos alimentos transgênicos e a importação de pneus usados.

O Ministério do Meio Ambiente não dispõe de recursos para enfrentar as questões que devem ser enfrentadas, principalmente na Amazônia. Ele tem pouco mais de 0,5% do orçamento do governo federal para todas as suas atividades, sendo uma parte desse recurso contingenciada. Por contar com poucos funcionários, o ministério também não tem condições de monitorar, fiscalizar e cadastrar, como deveria. Eu creio que a soma desses fatores ocasionou a demissão da ministra, sendo a gota d'água a nomeação de outro ministro para coordenar o PAS.

Ambiente Urbano: O novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, disse que haverá mais verba para trabalhar.

Washington Novaes: O presidente Lula disse que não. Ele pediu um bilhão de reais contingenciados de royalties de hidrelétricas e empresas de saneamento, mas o presidente já disse que não vai liberar.

Ambiente Urbano: O desenvolvimento econômico do nosso País ainda é calcado na insustentabilidade. Como reverter essa cultura?

Washington Novaes: É preciso analisar essa questão de dois ângulos: do interno e do global. Do ângulo interno, eu creio que falta ao governo brasileiro uma estratégia que coloque recursos e serviços naturais no centro e no princípio de tudo, pois esse é o fator escasso no mundo hoje. Segundo os relatórios do Programa das Nações Unidas do Meio Ambiente, nós estamos consumindo mais de 20% além da capacidade de reposição da biosfera terrestre, ou seja, nós estamos na mesma proporção de uma família que gasta mais que o seu orçamento, caminhando para uma situação de possível falência.

Então, se é assim, recursos e serviços naturais são o fator escasso no mundo hoje e eles é quem deveriam ter a maior valorização. Este deveria ser o centro da estratégia brasileira, pois o Brasil é um país privilegiado neste sentido. O nosso país possui um vasto território continental, tem bons índices de insolação o ano inteiro, possui 12% da água que corre no mundo, reúne de 15 a 20% da biodiversidade, tem a possibilidade de fazer uso de uma matriz energética limpa e renovável, porque tem acesso às energias eólica, solar, de marés, de biocombustíveis e, como diz o professor Ignácio Sachs, o Brasil é o país que tem a maior possibilidade no mundo nesta matéria, mas ainda falta a estratégia.

O Brasil continua a produzir a qualquer custo para exportar a qualquer preço, como faz há quinhentos anos. Agora, se analisarmos pelo ângulo global, é também complicado mudar esta realidade, já que cada empresário pode pensar estar sozinho nesta tarefa de adequar- se para a sustentabilidade, já que, para isso, é necessário absorver custos, arriscar a competitividade. Sendo assim, o caminho é que sejam instituídas regras capazes de implantar essas obrigações em âmbito global, para que todos, sem exceção, sejam obrigados a se adequar.

Ambiente Urbano:Mas estas regras já não existem?

Washington Novaes: Estas regras em instituições ainda não existem. A ONU, por exemplo, tem muita dificuldade em estabelecer regras para o mundo todo porque as suas convenções exigem consenso entre todos os participantes, o que é difícil, já que os interesses são muito contraditórios.

Neste momento, vemos a convenção da biodiversidade em Bonn, na Alemanha, travada por várias divergências. Antes dela, ocorreu a reunião do Protocolo de Cartagena [sobre o manejo e uso de organismos vivos modificados por meio da biotecnologia moderna e dos transgênicos], também sem obter vantagem, ficando a decisão final sobre regras de responsabilização por danos causados por transgênicos para 2010 [quando será realizada a 5ª Reunião das Partes, no Japão]. É um panorama muito difícil, tanto no plano interno como no plano global.

Ambiente Urbano: Existe uma série de pesquisas sendo desenvolvidas que comprovam que é possível produzir de forma mais sustentável, mas isso ainda é pouco visto na prática. No seu ponto de vista, o que leva as empresas a não investirem em métodos de produção mais sustentáveis?

Washington Novaes: Na verdade são vários fatores que levam a esse tipo de produção. A falta de informação, a questão dos custos e a competitividade talvez sejam os principais. Ainda vemos na agricultura, por exemplo, modelos que vigoram há décadas ou há séculos, com o uso intensivo de insumos químicos.

Ambiente Urbano: E o governo poderia incentivar mais essas produções sustentáveis?

Washington Novaes: Poderia, se ele tivesse visão para isso e estratégia, mas não tem.

Ambiente Urbano: Você é um dos relatores da Agenda 21 brasileira (plataforma de propostas para o desenvolvimento sustentável do país ao longo deste século, que foi definida a partir da Agenda 21 Global, aprovada na Eco-92). Qual sua avaliação sobre a aplicação do processo de Agenda 21 no País?

Washington Novaes: A Agenda 21 não é um receituário, mas sim um conjunto de estratégias e propostas em várias áreas, tais como a agricultura, o uso de recursos naturais, as cidades sustentáveis, a questão da ciência e tecnologia, a infra-estrutura, entre outras. Ela foi aprovada e promulgada em 2002 e, a partir daí, teria início um outro período, que seria o de avançar com a implantação desta Agenda. Em 2003 a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência me indicou para representá-la na Comissão da Agenda 21. Eu compareci em algumas reuniões, mas pedi para sair porque essas reuniões me pareceram absolutamente improdutivas. Apresentei algumas propostas que, em princípio foram aprovadas, mas nada aconteceu. Elas não foram levadas adiante.

Ambiente Urbano: E quais foram essas propostas?

Washington Novaes: Era a de construir um capítulo sobre o clima - que não está na Agenda 21 - e outro sobre economia sustentável,mas como isso não foi levado adiante, então eu pedi para sair. A Agenda está sendo implantada em diversos municípios e aqui em Goiás, onde moro, fui contratado como consultor para coordenar um processo de implantação da Agenda 21, mas ele está parado há mais de dois anos, segundo a alegação do governo, por falta de recursos. Eu vejo com apreensão este panorama, ou seja, não vejo muito a Agenda 21 chegar à prática, com a velocidade e a intensidade que seriam necessários.

Ambiente Urbano: Mas talvez isso não esteja ocorrendo por um desconhecimento da população sobre o processo da Agenda 21?

Washington Novaes: Sim, mas para que haja isso é preciso que se convoque a população para que se discutam as questões e o poder político no Brasil tem uma grande resistência a partilhar o seu poder de decisão.

Ambiente Urbano: Vemos muitos exemplos não seguirem adiante, em diversos lugares do País. Seria por esta falta de apoio do poder público?

Washington Novaes: Creio que falta uma conjugação de forças. Na minha opinião, o poder político ainda resiste a partilhar esse poder com a sociedade, a chamá-la para discutir, a adotar decisões apontadas pela sociedade. E a sociedade, por sua vez, não é capaz de se organizar sozinha, de discutir, de criar plataformas políticas e exigir que sejam colocadas em prática, ou mesmo de apresentar propostas para as campanhas políticas, porque, infelizmente, a sociedade brasileira ainda é muito desorganizada, ainda não tem essa capacidade.

Alguns Livros de Washington Novaes

· “Xingu, uma flecha no coração”, Ed. Brasiliense (1985)
· “A quem pertence a informação”, Ed. Vozes (1997)
· “Xingu”, Edição Olivetti (1985)
· “A Terra pede água”, Edição Sematec (1992)
· “A Década do Impasse”, Ed. Estação Liberdade (2002)

Com outros autores

· “Irã, a força de um povo e sua religião”, Ed. Expressão e Cultura (1979)
· “TV ao Vivo”, Ed. Brasiliense (1988)
· “Hélio Pellegrino – A-Deus” , Ed. Vozes (1989)
· “Informação e Poder”, Ed. Record (1994)
· “Índios no Brasil”, Ministério da Educação e do Desporto (1994)
· “Meio Ambiente no Século XXI”, Ed. Sextante (2003)

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