Revista Ambiente Urbano - Ano 3 - nº26 - Junho de 2008
Escrito por Inara Jacqueline
Quando a mídia é sensacionalista
Informar é necessário, mas quando os veículos de comunicação ultrapassam as barreiras de levar a informação às pessoas e parte para o sensacionalismo, pode modificar identidades e manipular mentes.
Sensacionalismo é um tipo de postura adotado por determinados meios de comunicação que abusam do apelo emotivo e do uso de imagens fortes na cobertura de um fato jornalístico, ou seja, “uma maneira de divulgar noticias em tom espalhafatoso, de modo a causar viva emoção”, como define o dicionário da língua portuguesa.
E esta técnica vem sendo utilizada pelos veículos como estratégia para aumentar as vendas de jornais e revistas ou para elevar os níveis de audiência das emissoras de TV e, infelizmente, o objetivo é alcançado. O público é atraído para um conteúdo, na maioria das vezes, de fatos interpretados e que não expressam somente a verdade. Informação de maneira integral é um direito de todos.
Durante muito tempo, a imprensa batalhou para conquistar a tão sonhada liberdade e, com isso, poder transmitir os fatos como são, da forma mais real possível. Mas, há algum tempo, o que se tem notado é que alguns veículos de comunicação vêm abusando desta liberdade e chegam a divulgar somente notícias que “dão ibope”, ou seja, aquelas mais sensacionalistas, dedicando um tempo enorme de sua programação ou páginas e mais páginas para assuntos que, nem sempre, acrescentam algo de positivo na vida de quem recebe a informação.
Com a alegação de estar prestando serviço cultural e informativo, essa mídia vem causando grande influência negativa na vida das pessoas.
Esta divulgação da violência por parte da mídia pode modificar antigos valores familiares ou até mesmo induzir a mudanças comportamentais, podendo existir uma aprendizagem negativa do que é exposto.
Se já não bastasse a violência direta, que podemos sentir nas ruas, também temos de conviver com a violência exposta diariamente pela mídia que, ao mostrar os fatos, passa-nos a impressão de que tudo o que acontece de negativo nas cidades pode nos atingir facilmente. ”Ao tomar conhecimento de todos esses relatos da violência, as pessoas passam a ter mais medo. Medo do outro, medo de sair na rua, de falar com estranhos, de andar sozinhas... Esse medo algumas vezes pode ser desproporcional à violência que efetivamente acontece e torna-se um medo paranóico”, explica a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Elizabeth Rondelli.
Brigas, intrigas e mortes são destaque em programas que buscam apenas a audiência. Verdadeiras batalhas são travadas diariamente para a cobertura mais dramática do mesmo assunto, oferecendo uma visibilidade exagerada dos detalhes mais violentos do fato, com direito a dramatização e ênfase acentuada na cobertura de episódios violentos.
Isso pode deixar a população confusa, sem saber como agir diante do cenário alarmante que é imposto pelos meios. “A mídia interfere bastante na maneira como as pessoas vêem a violência e a sociedade, já que elas conhecem o mundo por meio das informações que recebem da mídia. A idéia de que a violência está em toda parte não vem tanto de nossa experiência direta com os fatos, mas sim do que lemos nos jornais e assistimos na televisão”, completa Elizabeth.
A Busca pela Audiência
A dramaticidade exagerada, a manipulação da informação e o exagero no sensacionalismo são a fórmula encontrada por alguns programas de TV que transformam tristes fatos da realidade em verdadeiros “shows”, onde só o que importa é o melhor ângulo ou a notícia mais alarmante, pois é dada uma visibilidade excessiva a esses fatos. A aparência indefesa da mídia pode esconder um “superpoder” que causa grande influência na vida das pessoas. A TV é hoje um dos maiores veículos de manifestação do poder no País, pois ajuda a moldar identidades, promove uma socialização de maneira dominante, com uma dependência entre comunicação e definição de padrões culturais. A TV, de certa forma, ensina o que é “bom e ruim”, “o certo e o errado”, por ser um veículo de grande capacidade de mobilização social, influenciando principalmente as crianças e os jovens, que passam muitas horas em frente ao aparelho.
Crianças e Adolescentes
Crianças e adolescentes passam grande parte do seu tempo em frente à TV, que pode educar e ensinar, mas também amedrontar ou instigar a violência. Por mais que exista uma classificação indicativa de idade para cada tipo de programa, não são todas as pessoas que respeitam essas indicações e, com isso, as crianças podem ter acesso a determinadas notícias, que podem fazê-las ter uma imagem errada ou distorcida do mundo.
De acordo com a psicóloga Denise Renaldin, grande parte dos indivíduos constroem a sua identidade através da mídia. “Podemos notar este fato observando e comparando as preocupações dos jovens de hoje com as preocupações dos jovens de alguns anos atrás. É notável que ultimamente eles estão muito mais preocupados em saber quem irá beijar quem na novela ou mesmo quem jogou a criança pela janela”, explica a psicóloga referindo-se ao caso Isabella Nardoni, que recebeu uma atenção exagerada da mídia nos últimos meses.
O assassinato da criança é mais um exemplo de um triste fato da realidade transformado em uma verdadeira novela, na qual toda a população opinava e tirava as suas próprias conclusões, tentando encontrar o verdadeiro culpado pelo ocorrido. A superexposição deste caso na mídia pode, segundo a psicóloga, fazer com que algumas crianças sintam-se menos protegidas por seus próprios pais, madrastas ou padrastos.
Outro fato preocupante pelo excesso de negativismo nos veículos de comunicação é que as crianças que ficam muito tempo em contato com isso encontram neste ambiente referências para construir o seu sistema de valor ético-moral. Portanto, cenas que priorizam a violência, a falta de ética ou de solidariedade podem fazer com que elas entendam que esses valores, contrários aos que são fundamentais para a formação de uma estrutura social saudável, sejam os corretos, passando a adotá-los, até mesmo inconscientemente, em suas vidas.
A violência entre as crianças também pode ser instigada de uma maneira bem mais sutil. Basta prestar atenção nos desenhos animados: são poucos os que não mostram absolutamente nada de cenas de violência. O problema é que esta violência pode interferir no desenvolvimento das crianças, podendo, inclusive, induzir a futuras agressões.
Qual saída?
A solução para o sensacionalismo e a superexposição da violência deve partir inicialmente dos veículos de comunicação, que poderiam priorizar assuntos mais educativos e que acrescentariam algo de bom na vida das pessoas. O rádio, a TV, os jornais e as revistas são ferramentas poderosíssimas, capazes de promover a cidadania, a paz, a justiça e a solidariedade entre os indivíduos. A massificação de boas notícias, além de propiciar leituras mais agradáveis e uma televisão mais “limpa”, poderia até mesmo ser um caminho para tornar os ambientes melhores.
Virar as costas para os acontecimentos do mundo não é o certo, mas também explorar as mazelas da humanidade não acrescenta nada em nossas vidas: só contribui para gerar mais medo e mais violência.