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Revista Ambiente Urbano Revista Ambiente Urbano - Ano 3 nº27- Julho/Agosto de 2008
Autor Escrito por Fernanda Correia
 
A arte em prol da solidariedade
Grupo de Santo André resgata a função social da arte e, por meio da arte de narrar histórias, coloca em questão a necessidade de ações solidárias e voluntárias, caracterizada pela transmissão de experiências, valores e saberes.

A arte em prol da solidariedade

A vida é feita de ciclos. O ciclo natural da vida é quando passamos da infância para a adolescência, depois transitamos para a vida adulta, para a velhice, até chegarmos ao fim da jornada quando, inevitavelmente, nos deparamos com a morte. Antigamente, as famílias dialogavam mais sobre essas passagens da vida, e nos momentos mais difíceis havia sempre alguém querido por perto dando todo apoio e transmitindo suas experiências de vida aos mais novos.

Apesar de os ciclos fazerem parte de nossa vida desde os tempos mais remotos, nossa sociedade fala cada vez menos sobre eles. As pessoas quase já não conversam mais como faziam no passado e, nos casos de doença ou morte, o tratamento não é mais como era antigamente. Hoje, as pessoas adoecem e morrem cada vez mais sozinhas, seja porque os familiares estão despreparados para lidar com essas situações ou porque o ritmo de vida reduziu o tempo para o convívio.

Pensando em levar um pouco de aconchego às pessoas que enfrentam situações como esta é que surgiu o grupo “Os Narradores de Passagem”. De acordo com uma das voluntárias - e capacitadora do grupo -, Elisabete Kaczorowski, o trabalho começou com um núcleo de pesquisa na Escola Livre de Teatro de Santo André. "A  iniciativa partiu do Luis Alberto de Abreu [dramaturgo e escritor] que sempre quis contar histórias nos hospitais, porém, não seriam histórias comuns, mas sim relatos que trouxessem algo de bom para a vida das pessoas, ajudando-as a compreender as principais passagens da vida". Em 2005, o grupo iniciou com as pesquisas, e no ano seguinte foram realizadas as primeiras atuações em hospitais. Hoje, os narradores também atuam em outros locais como o Centro de Pesquisa de Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina do ABC, na Casa Ronald Mc Donald, em asilos e creches.

O Nascimento das Histórias

Uma das preocupações dos Narradores de Passagem é manter viva a tradição de transmitir experiências humanas por meio das histórias; por isso, elas são sempre baseadas em algum fato real. Elisabete conta que as primeiras histórias surgiram de uma experiência em grupo, onde cada voluntário contou uma história de uma passagem que considerava significativa. “Essas passagens relatadas poderiam ser sobre o ingresso na vida adulta, na velhice, sobre o casamento, o nascimento, a morte etc.”, diz a voluntária.

As histórias contadas pelo grupo serviram de inspiração para que nascessem os primeiros contos que seriam narrados nos hospitais; no entanto, tanto a pessoa que inspirou a história como quem a escreveu não poderiam narrá-la para evitar um vínculo emocional. "Agora, o próximo passo do grupo é escrever novas narrativas, inclusive, de histórias contadas por pacientes nos hospitais, já que este trabalho proporciona grande troca de experiências", diz Elisabete.

A arte da Narrativa

Existe uma diferença fundamental entre contar e narrar uma história. De acordo com o dramaturgo e escritor Luis Alberto de Abreu, o narrador em tempos idos já foi personagem de importância fundamental em uma comunidade. "O relato do narrador era algo especial.

O conteúdo de sua história era extraído dos acontecimentos da vida, mas era artisticamente elaborado, pois seu objetivo não era refazer em palavras o acontecido, mas provocar nos ouvintes as pró- prias sensações do acontecimento".

O objetivo do grupo é resgatar a arte de contar histórias e, para isso, está à procura de voluntários dispostos a realizar esta tarefa. Atualmente, o grupo conta com 15 narradores, que não são suficientes para atender os cerca de 40 hospitais que aguardam pelo trabalho da ONG. Por isso, o grupo está buscando pessoas que também queiram doar um pouco de seu tempo para esta arte. De acordo com Elisabete, os interessados em narrar histórias passam por um curso de capacitação, totalmente gratuito.

Neste curso, são apresentadas todas as técnicas de narração e os voluntários são preparados para contar as histórias. "Antes de irem sozinhos, os novos voluntários são assistidos pelos narradores mais experientes, até que eles se sintam seguros para a atividade", explica Elisabete, que completa informando que a única exigência para quem quer se voluntariar é ter 25 anos ou mais.

Palavras de uma narradora...

“Eu estava assustada; temia como a Dona Teresa receberia a narrativa, uma senhora acamada, em um quarto com vários leitos, lugar frio, pisos e azulejos. Sua cama ficava bem próxima de uma janela que dava para um corredor, por onde as funcionárias e outras internas transitavam.

Apresentei-me e começamos a conversar, falamos sobre a janela e o vidro que protegia o corredor. Disse a ela que aquele corredor me lembrava de uma história e perguntei se podia contar; ela aceitou. Narrei “Tempestade”. Foi tão maravilhoso! Vi seus olhos marejarem várias vezes durante a narrativa. Assim que terminei, ela me disse que se lembrou de quando era criança e de todas as vezes que, quando caíam trovões e relâmpagos, ela e seus irmãos se escondiam debaixo da mesa da cozinha (que cobriam com um cobertor fazendo uma cabaninha; ficavam ali encolhidinhos pedindo pra Deus que o temporal passasse logo). Abraçou-me e disse que minha história fez com que ela atravessasse o vidro do corredor e, por alguns minutos, voltasse ao seu passado e revivesse momentos saudosos. Beijou-me e agradeceu minha presença e o presente que eu havia lhe dado. Saí tão empolgada que narrei para umas seis senhoras naquele dia. Começamos este trabalho imaginando o que podemos doar às pessoas, a narrativa, a reflexão, o contato humano... E então descobrimos que o que recebemos como recompensa é tão maior e gratificante que começamos a notar que, com certeza, tudo aquilo que fazemos é cem mil vezes mais necessário pra nós. E não foi somente na primeira vez: todos os dias é assim. Recebemos tantos abraços, tantos beijos e tantas bênçãos... Afinal, quem dá e quem recebe, hein? Precisa dizer mais?”

Elisabete Kaczorowski – Narradora e coordenadora

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Narradores de Passagem
www.narradoresdepassagem.org
 

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