Revista Ambiente Urbano - Ano 3 - nº27 - Julho/Agosto de 2008
Escrito por Inara Jacqueline / Arte: Thiago Luz
A vida começa aos 60!
A cada ano, o mercado de trabalho passará a contar com mais pessoas da terceira idade. Veja o que a sociedade e os empregadores ganham com esta mudança.
O aumento da expectativa de vida da população brasileira faz com que a sociedade passe por transformações. De acordo com projeções feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil deverá ter um crescimento populacional de mais de 100% da população idosa, que poderá ultrapassar os 30 milhões, até 2020. Diante deste quadro, muitas mudanças ocorrerão em nossa sociedade, inclusive no mercado de trabalho, afinal, é cada vez maior o número de pessoas que ultrapassam os 60 anos com boas condições físicas e mentais.
Hoje, muitos empresários estão se atentando para esta questão, embora ainda sejam poucas as iniciativas para empregar pessoas com idade mais avançada. De acordo com a consultora de carreira do Grupo Catho, Mayra Fragiacomo, está na hora de se repensar mitos que nos foram impostos sobre as pessoas da terceira idade. "Não podemos mais acreditar que as pessoas mais velhas são incapazes e só gostam de ficar trancafiadas em suas casas.
Esse é um estereótipo que precisa ser aniquilado por parte das empresas". Infelizmente, nossa sociedade ainda alimenta uma crença de que o trabalho deve ser preferencialmente destinado aos mais jovens - crença talvez motivada pela força física que eles possuem -, mas nem sempre este aspecto é importante, já que muitas atividades dependem mais da capacidade mental e da experiência adquirida ao longo da vida.
Além disso, o processo de envelhecimento é algo que varia de acordo com o ritmo de vida de cada um. Embora seja uma fase propícia para o aparecimento de problemas de saúde, é possível encontrar pessoas que levam uma vida saudável e extremamente ativa. Para o psicólogo clínico e diretor executivo do Instituto de Neurociência e Comportamento de São Paulo, Gildo Angelotti, os brasileiros ainda são muito atrasados em relação à valorização dos idosos, quando comparados aos europeus, orientais e até mesmo aos norte-americanos. "Em países desenvolvidos, o idoso é uma pessoa que aprendeu muito e tem muito a ensinar.
No Brasil, apenas na área de educação, o idoso é reconhecido, até em função do nível cultural dos estudantes", explica. A consultora conta ainda que na Europa não se fala mais em terceira idade, mas já em quarta idade. "Os velhos têm alcançado idades superiores e foi criada uma nova nomenclatura etária, uma vez que o termo terceira idade está englobando pessoas de variadas décadas - 50, 60, 70, 80 e os centenários -,tornando-se abrangente demais".
Vantagens
Existem muitas vantagens em se contratar um profissional com mais idade. A principal delas certamente é a experiência de vida. Pessoas com mais de 50 ou 60 anos certamente contam com maior estabilidade emocional e já concluíram uma série de atividades: como seus filhos estão criados e sua família está estruturada, elas podem estar livres para buscar novas oportunidades, inclusive dedicar-se mais para o trabalho. Mayra Fragiacomo cita algumas vantagens em contratar profissionais com mais vivência. "Destaco como principais: conhecimentos acumulados, possibilidade de aprendizado, muita experiência - que pode ser compartilhada -, autocontrole, excelente nível cultural, maturidade, dinamismo, liderança, flexibilidade, princípios éticos delineados, menor possibilidade de troca de empregos e habilidades excelentes de negociação e tratativa com clientes". Segundo a consultora de carreira, existem empresas que valorizam a contratação dos profissionais maduros para cargos gerenciais, pensando na experiência e capacidade de liderança. Outras contratam para cargos na área co- mercial, tendo em vista a capacidade de negociação e a experiência em atender os clientes de maneira assertiva. Há empresas de serviços que contratam os mais velhos para realizar atendimento aos clientes, como é o caso de lanchonetes, cinemas, lojas de shopping, centrais de atendimento, entre outras. "Eles entendem que o cliente gosta de ser carregado no colo quando está em seu momento de lazer ou precisando resolver um problema e vêem o profissional idoso como o personagem ideal para fazê-lo: os idosos tratam os clientes como filhos e são extremamente atenciosos com eles, tornando a qualidade do atendimento bastante superior", explica. Por outro lado, o contratado também passa a se sentir mais valorizado por poder ajudar o próximo e por colocar em prática o conhecimento e as habilidades que possui.
Muitos estudos comprovam que as pessoas que trabalham apresentam condições de saúde física e mental melhores do que as excluídas do ambiente de trabalho. Isso sem falar que as atividades diárias - no sentido de estabelecer uma rotina de horários e tarefas - contribuem muito para a qualidade de vida dos idosos.
Ajuda no Lar
Idosos também dão uma importante contribuição no sustento de muitas famílias. De acordo com o professor PhD da Faculdade de Informática e Administração Paulista e da Faculdade Módulo (Fiap), Marcos Crivelaro, o número de idosos responsáveis por suas famílias é de aproximadamente 10%. "As famílias com idosos têm renda 16% maior do que as famílias sem idosos. Os baixos valores das pensões, o desejo de continuar trabalhando e a condição plena de saúde fazem com que 20% dos idosos aposentados no Brasil trabalhem". É o caso da funcionária do Grupo Pão de Açúcar, Nádia Fareleski, de 56 anos. Ela trabalha em uma das lojas da rede, em São Paulo, desde dezembro de 2007, mas, antes de conseguir este emprego, ficou seis anos fora do mercado de trabalho. Nádia, que era funcionária pública e pediu exoneração do cargo para cuidar de seus pais idosos, chegou a coletar materiais recicláveis para vender e ajudar no orçamento doméstico. Após a morte de seu pai e de sua mãe, ela decidiu voltar para o mercado de trabalho. "Havia uma nova loja para inaugurar e, após passar pelas etapas do processo seletivo, eu fiquei com a última vaga de empacotadora disponível, que aceitei para começar. Seis meses depois fui promovida para frente de caixa, cumprindo seis horas de trabalho por dia". Nádia conta que mora com dois filhos e, com o salário que recebe, ajuda nas contas do mês.
Oportunidades
O Grupo Pão de Açúcar, que contratou Nádia, contrata funcionários com mais de 55 anos desde 1997. Hoje, são cerca de 1.500 funcionários neste perfil. "Começamos a observar nossos antigos funcionários envelhecendo dentro da empresa e mantendo sua capacidade, muitas vezes tendo a maturidade como aliada no campo profissional. Então pensamos como poderíamos trocar experiências com essa faixa etária", diz a gerente de atratividade e seleção do Grupo, Eliana Ponzio.
Assim como o Pão de Açúcar, a Pizza Hut também contrata pessoas com mais de 60 anos, que já encerraram suas atividades profissionais, mas que ainda têm interesse de permanecer ou de reintegrar o mercado de trabalho. É por meio do "Programa Atividade" que os participantes selecionados são contratados para exercer suas atividades em algum restaurante da Pizza Hut mais próximo à sua residência. Esses funcionários recebem remuneração mensal e também possuem seguro de vida, convênio médico e odontológico e cesta-básica.
Onde encontrar vagas?
Grupo Pão de Açúcar: destinado a pessoas com mais de 55 anos e que tenham disposição, energia para o trabalho e bom relacionamento. Essas pessoas devem residir na proximidade das lojas em que desejam trabalhar. Outras informações: www.grupopaodeacucar.com.br
Pizza Hut: em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social e com o apoio do Coife Odonto, a empresa proporciona às pessoas com mais de 60 anos a possibilidade de trabalho e relação social. Mais detalhes: www.pizzahutsp.com.br