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Matéria Especial
Dinheiro: use com moderação

O final do ano está próximo, época em que o desejo de gastar cresce. Veja como usar bem o crédito e o dinheiro para não se arrepender no futuro

Hoje em dia, solicitar um empréstimo, comprar parcelado ou fazer um cartão de crédito é extremamente simples. Basta que exista o desejo de adquirir algo que a mágica do financiamento transforma os sonhos em realidade.
É nisso que muita gente acredita. Mas o que a princípio parece ser uma facilidade, se não for utilizado com moderação, pode se tornar um pesadelo no futuro. Atraída pela possibilidade de antecipar a realização de um sonho, muita gente tem se endividado ao utilizar esses recursos e agora encontra sérias dificuldades em sair dessa condição.
O assessor técnico da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Ademiro Vian, explica que o crédito é como uma dose de remédio: se tomado em doses corretas, ele fortifica e coloca o consumidor em pé, porém, se usado erroneamente, pode levar à morte.
Agora, com a chegada do final do ano e o recebimento do 13º salário, é um bom momento para colocar as contas em dia, antes de sair comprando com o risco de se endividar ainda mais. As tentações são grandes nesta época, mas antes de se deixar levar pelo ato impulsivo de comprar, é fundamental analisar as reais necessidades e possibilidades de compra. Lojas enfeitadas, ilusão de preços baixos e parcelamento a perder de vista são grandes atrativos, no entanto, não podem ser fatores determinantes para a decisão da compra. "As pessoas jamais devem ser seduzidas pelo tamanho das parcelas de uma compra a prazo. Não é porque a parcela é baixa e cabe no orçamento que a compra compensa", diz Vian. Ele explica ainda que há alguns pontos fundamentais que devem ser observados antes da compra a prazo: qual o valor que será pago pelo produto no final das contas, a taxa de juros adotada e a renda que se tem disponível. "A pessoa deve levar em conta se a sua renda é consistente, ou seja, se não haverá variações ou interrupção durante o período do financiamento."

Cuidado com as armadilhas
É muito comum vermos lojas oferecendo possibilidades de pagamento parcelado sem juros, mas, será que isso é realmente possível? De acordo com uma publicação do Instituto Akatu sobre o “Consumo Consciente do Dinheiro e do Crédito”, isso não existe, afinal, o juro estará embutido no preço à vista, tornando mais atraente para o consumidor o pagamento parcelado.
Para o economista, sociólogo e professor do Instituto Brasileiro do Mercado de Capitais (Ibmec) de São Paulo Eduardo Giannetti não é possível ter preço à vista igual a preço em dez ou 24 vezes sem juros. É fácil compreender como isso funciona. Digamos que um lojista tem R$ 1.000 para investir. Se ele aplicar no banco, à taxa de 2,0% ao mês, ao fim de 10 meses ele terá R$ 1.219, ou seja, R$ 219 de lucro. Agora, se ele comprar duas TVs, por R$ 500 cada, e vender cada uma delas por 10 parcelas de R$ 100 "iguais e sem juros", o resultado ao final de 10 meses será de R$ 2.190 (R$ 1.095 para cada venda). Você deve estar se perguntando como isso é possível. Na verdade, se aplicarmos a mesma taxa mensal de 2,0% às parcelas de R$ 100,00, ao final de dez meses o lojista terá recebido R$ 190 de lucro (R$ 95 de cada venda), além dos R$ 2.000.
Como se pode perceber, muitas vezes a loja ganha mais emprestando dinheiro a juros (disfarçados nas prestações) do que no comércio propriamente dito.
Mas, para que o ganho maior aconteça, é essencial que haja o consumismo. E o consumidor deve ficar atento a essas armadilhas. É fundamental que haja pesquisa, mas também é imprescindível que haja o bom senso: por isso, fuja das compras por impulso. Comprar algo sem pensar quase sempre pode levar ao arrependimento, pois o consumista não tem a noção do limite e acaba gastando mais do que pode. Para a psicóloga Silvana Martani, quando uma pessoa não consegue suprir suas carências e necessidades emocionais, ela acaba transferindo essa necessidade para o consumo. "Quando uma pessoa passa a gastar ou comprar além do que deveria, é porque está fazendo uma transferência dos seus sentimentos de insatisfação - isso pode ser em vários sentidos, que vão desde relacionamento a família - para o consumo".
A diferença essencial entre o consumista e o consumidor está na forma como cada um emprega seu dinheiro. O consumidor só compra aquilo que realmente lhe será necessário sendo, portanto, um ativista do desenvolvimento sustentável que procura manter uma vida materialmente confortável, sem comprometer a vida da sociedade de que depende. É necessário que o cidadão perceba que o ato de consumo não é só a satisfação de uma necessidade mas, principalmente, um ato de cidadania. A consciência leva os consumidores a perceberem que a sua escolha tem o poder de salvar o planeta.

Atenção redobrada com as crianças
As crianças são as mais presenteadas nesta época do ano. Os pais estão sempre dispostos a dar aos filhos aquilo que, nem sempre, podem pagar. Com as propagandas o tempo todo bombardeando os pequenos com informações, é preciso muita cautela na escolha do presente. O economista Robinson Moraes, da equipe do Valor Data, fez um cálculo que mostra bem o que é dar um presente de forma consciente às crianças. Ele mostra que se, em vez de presentear uma criança de quatro anos com um celular de R$ 800, esse dinheiro fosse aplicado com mais depósitos mensais de R$ 50, a uma taxa média anual de 8%, ao final de 18 anos a criança teria R$ 26,6 mil ou R$ 33,3 mil, a uma taxa de 10%. Como se pode perceber, um carro ou boa parte da faculdade garantidos. Agora, em um prazo mais longo (uns 20 anos a mais), esse investimento renderia um presente de R$ 155 mil (a uma taxa de 8% ao ano) ou de R$ 223 mil (a uma taxa de 10%).
É comum crianças quererem tudo que veem pela frente; por isso, os pais devem ficar atentos ao o que é realmente o desejo dos filhos ou uma vontade impulsionada por um comercial de TV. Um pai não precisa se sentir culpado se não presentear seu filho com o supercarro que faz mil manobras sozinho ou com um celular de última geração. A psicóloga Silvana Martani explica que, neste caso, os pais podem pedir para que as crianças enumerem as suas preferências, colocando em ordem de prioridade o que preferem ganhar. "É importante eleger apenas uma das prioridades. É interessante também que os pais percebam qual o brinquedo que traria mais satisfação à criança." E não esqueça: incentivar seus filhos desde cedo a escolher brinquedos educativos, ou que respeitem o meio ambiente, é a melhor forma de ajudar na formação dos consumidores responsáveis do futuro.



Publicado em: 13/11/2009

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